Personagens clássicos de Ragnarok Online em arte oficial do jogo

Ragnarok Online no Brasil: a história que começou nas LAN houses e virou parte de uma geração

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Escrito por Jefferson Norte

03/09/2026

Para muita gente no Brasil, Ragnarok Online não começou em Prontera. Começou em uma LAN house, em um CD emprestado ou no computador de algum amigo.

Anos depois, o jogo chegaria até a aparecer dentro de caixas de cereal.

Antes de internet rápida, downloads instantâneos e bibliotecas enormes na Steam, o MMORPG da Gravity encontrou um caminho muito particular até os jogadores brasileiros — e acabou entrando na memória de uma geração.

Mas essa história começa alguns anos antes, do outro lado do mundo.

Ragnarok nasceu na Coreia antes de chegar ao Brasil

Ragnarok Online foi desenvolvido pela sul-coreana Gravity e nasceu a partir do universo do manhwa Ragnarök, criado por Lee Myung-jin.

Depois de um período de desenvolvimento e testes, Ragnarok Online foi lançado comercialmente na Coreia do Sul em 2002. A partir dali, começou uma rápida expansão internacional, chegando a países como Japão, Taiwan, Estados Unidos, China e vários outros mercados.

E havia algo imediatamente diferente nele.

Personagens em sprites 2D caminhavam por ambientes tridimensionais, acompanhados por uma trilha sonora que acabaria se tornando inseparável das lembranças do jogo.

Para quem viveu aquela época, às vezes alguns segundos da música de Prontera são suficientes para desbloquear uma memória de vinte anos atrás.

Imagem artística de um Knight usando uma Kataná
Arte oficial de Ragnarok Online. Imagem: Gravity.

E quando Ragnarok chegou ao Brasil?

Aqui é onde as datas costumam causar confusão.

O acordo da Gravity com a Level Up para operar Ragnarok Online no Brasil foi firmado em agosto de 2004, e o jogo passou por um período de testes no país naquele ano.

O open beta atravessou os últimos meses de 2004, permitindo que muitos brasileiros começassem a jogar antes do lançamento comercial.

Depois de aproximadamente quatro meses de testes, a comercialização oficial começou em 23 de fevereiro de 2005.

Por isso é perfeitamente possível encontrar alguém dizendo:

“Eu jogo Ragnarok no Brasil desde 2004.”

E essa pessoa não está necessariamente errada.

2004 marcou a chegada e os testes do bRO. Fevereiro de 2005 marcou o início de sua operação comercial.

Baixar Ragnarok naquela época era outra história

Hoje instalar um jogo significa clicar em “baixar” e esperar.

Nos anos 2000, não era tão simples.

A internet brasileira ainda era limitada para uma parcela enorme da população, e baixar um jogo relativamente grande podia consumir horas — ou simplesmente não ser uma opção viável.

Ragnarok tinha uma vantagem: conseguia funcionar em computadores relativamente modestos e combinava muito bem com a estrutura de internet que existia no país naquele momento.

Mas ainda havia um problema.

Como colocar o instalador nas mãos das pessoas?

A resposta parece estranha para quem cresceu com lojas digitais:

CDs. Muitos CDs.

Ragnarok aparecia em revistas, materiais promocionais e outros meios físicos. Houve até publicação brasileira distribuindo o CD completo do jogo junto da revista.

Para muita gente, instalar Ragnarok significava literalmente pegar um disco e colocar no computador.

As LAN houses fizeram o resto

Se existe um lugar que representa o Ragnarok brasileiro dos anos 2000, provavelmente é a LAN house.

Era onde muita gente encontrava internet melhor, computadores capazes de rodar jogos e, principalmente, outras pessoas jogando.

Você podia entrar para jogar Counter-Strike e perceber que vários computadores ao lado estavam mostrando aqueles personagens pequenos andando por Prontera.

Era publicidade acontecendo na sua frente.

“Que jogo é esse?”

“Ragnarok.”

E pronto.

A Level Up apostou fortemente nesses estabelecimentos e, ao longo de sua operação, construiu uma enorme rede parceira. Relatos posteriores sobre a empresa mencionam mais de 10 mil LAN houses credenciadas, que podiam inclusive comercializar créditos de seus jogos.

Ragnarok combinava perfeitamente com aquele ambiente.

O Sacerdote podia estar no computador ao lado.

O Cavaleiro da sua guilda podia ser seu amigo da escola.

Alguém mais ao fundo podia estar comemorando alguma coisa rara.

E outra pessoa certamente estava perguntando:

“Quanto tempo ainda tem aí?”

O mundo virtual e a LAN house acabavam se misturando.

Grupo de personagens do Ragnarok Online ao redor da fogueira.
Ragnarok também ficou marcado pelas amizades e pela experiência em grupo. Imagem: Gravity.

Prontera virou uma praça virtual

Ragnarok também chegou em um momento muito particular da internet brasileira.

As redes sociais ainda não ocupavam nossa vida como hoje. MSN, fóruns, Orkut e jogos online eram alguns dos lugares em que as pessoas passavam horas conversando.

E Ragnarok não era apenas um jogo em que havia outras pessoas.

As outras pessoas eram parte do jogo.

Você chegava a Prontera e encontrava jogadores vendendo equipamentos, recrutando para guildas, organizando grupos, negociando itens ou simplesmente sentados conversando.

Era quase uma praça.

Por isso tantas lembranças de Ragnarok não envolvem derrotar um chefe ou chegar ao nível máximo.

Envolvem pessoas.

E então vinha uma carta

Poucas coisas representam tão bem Ragnarok quanto aquela pequena imagem surgindo entre os itens derrubados por um monstro.

Uma carta.

O sistema fazia com que até monstros aparentemente insignificantes pudessem derrubar itens muito desejados.

E isso criava uma combinação quase cruel de repetição e esperança.

Você matava o mesmo monstro.

De novo.

De novo.

Mais uma vez.

O inventário enchia.

Nada.

Até que, de repente…

a carta aparecia.

Para quem estava em uma LAN house, existia ainda uma etapa inevitável:

mostrar para todo mundo ao redor.

Arte oficial do Ragnarok Online dos anos 2.000, representando o monstro fofinho Poring.
O Poring se tornou um dos monstros mais reconhecíveis de Ragnarok Online. Imagem: Gravity.

As guildas transformaram jogadores em comunidades

Em algum momento, Ragnarok deixava de ser somente sobre seu personagem.

Vieram as guildas, as amizades, as rivalidades e a Guerra do Emperium — a famosa WoE.

Jogadores passavam a semana preparando personagens, equipamentos, consumíveis e estratégias para disputar castelos durante algumas horas.

WoE Ragnarok Online
Guerra do Emperium, a WoE, foi uma das experiências mais marcantes das guildas de Ragnarok Online. Imagem: Gravity.

E perder para determinada guilda não era simplesmente perder uma partida.

Na semana seguinte tinha revanche.

Algumas rivalidades atravessaram anos e servidores.

Ragnarok encontrou uma maneira de fazer as pessoas dependerem umas das outras, e isso ajudou a criar comunidades que continuaram existindo muito depois de alguns jogadores terem parado de jogar.

E sim: Ragnarok foi parar em uma caixa de cereal

Essa história merece aparecer porque parece mentira quando contada hoje.

Mas aconteceu.

Anos depois da chegada de Ragnarok ao Brasil, a Level Up realizou campanhas com a Nestlé.

Em 2009, uma edição especial do cereal Crunch trouxe um DVD que permitia instalar jogos da Level Up, entre eles Ragnarok Online. A promoção também oferecia créditos para um dos títulos participantes.

Ou seja:

em determinado momento da história brasileira de Ragnarok, você podia ir ao mercado comprar cereal e voltar para casa com um DVD que instalava o jogo.

É difícil imaginar uma lembrança mais anos 2000 do que essa.

E provavelmente explica por que algumas pessoas lembram de Ragnarok até hoje mesmo sem terem sido jogadores dedicados.

O jogo simplesmente estava por toda parte.

Talvez seja por isso que Ragnarok ainda provoque tanta nostalgia

Hoje existem jogos maiores.

Mais bonitos.

Mais rápidos.

Mais complexos.

Mas tecnologia não substitui contexto.

Ragnarok apareceu no Brasil no momento certo.

Foi a época das LAN houses, dos CDs de instalação, das revistas de games, do MSN, do Orkut e da descoberta de que um jogo podia ser também um lugar para encontrar pessoas.

Por isso cada jogador parece lembrar de uma coisa diferente.

A primeira mudança de classe.

Uma carta que finalmente caiu.

Uma música.

Uma guilda.

Uma Guerra do Emperium.

Um amigo que desapareceu e nunca mais entrou.

O computador preferido da LAN house.

Um CD guardado em alguma gaveta.

Ou, anos depois, uma caixa de Crunch com Ragnarok dentro.

Talvez seja essa a maior conquista do jogo.

Mais de duas décadas depois de seu lançamento original, você não precisa explicar Ragnarok para quem viveu aquela época.

Basta falar “Prontera”.

E alguém já tem uma história para contar.

Fontes consultadas: Gravity, documentos da SEC, UOL Jogos, UOL Start, Level Up, Voxel/TecMundo e Promoview.

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Marketeiro, jogador casual e fundador do STARCRIA. Criou o portal para compartilhar histórias, curiosidades, notícias e conteúdos sobre games de forma leve, clara e feita para quem gosta de ir além do jogo.